Rui Costa, a propósito de Portugal Vale a Pena, por Nicolau Santos

Tomei a liberdade de transformar um comentário a um anterior post por achar que toca em pontos demasiado sensíveis e com grande propriedade e conhecimento de causa, para ficar esquecido num mero comentário que poucos irão ler. Assim, reproduzo aqui excertos da missiva:

…Apontar os nossos fracassos não resolve problemas, mas orgulharmo-nos dos “nossos” sucessos também não.  É que ninguém enche a barriga com orgulho.

Se Portugal, ou qualquer outro país, vale a pena ou não é uma questão sempre posta, sempre por responder, e diariamente respondida por nós, cidadãos que somos.
E não é uma pergunta material, mas espiritual… A questão é se sabemos o que significa ser português hoje, e se queremos continuar a sê-lo
. (Gostava de vos ouvir a este respeito!)

O que se diz de Portugal, em termos de tecnologia e capacidade de a exportar, também se pode dizer do Brasil (eg Embraer, Petrobrás).
No entanto, ambos são países do terceiro mundo, com enormes assimetrias de desenvolvimento e de geração/distribuição de rendimento, o que disfarçam com estatísticas. Uma galinha serve de almoço a duas pessoas, o que significa que cada come, em média, meia galinha. Um bom almoço, não é ? Depende.

Não é por acaso que os triunfos apresentados e respectivas empresas trabalham maioritariamente com o exterior: além de o nosso mercado ser pequeno e não oferecer por isso escala suficiente, em Portugal nivela-se por baixo, pelo medíocre, anti-competitivamente. Trabalhar e ganhar dinheiro são mal-vistos, geram inveja em vez de impulso ganhador. Nenhum português tirunfa em grande em casa: J Berardo, A Damásio, JP Coutinho.
O nosso Nobel “mais recente”, vive em Espanha. Em Espanha !, porque aqui um idiota eleito por todos nós, que os nossos deputados não respondem aos eleitores do seu círculo, mas ao chefe de bancada, repudiou uma das suas obras. O neurocirurgião A Lobo Antunes, quando voltou de catedrático de Columbia, teve de regressar com calma, para não ferir susceptibilidades, confessando mais tarde que lhe deu tanto trabalho preparar o regresso quanto a partida. Jorge Braga de Macedo, catedrático de economia na UNL, teve de defender tese de doutoramento novamente quando regressou, porque a de Yale não prestava. Etc..

Finalizando, Nicolau Santos poderá estar a soldo de alguém que lhe pague para dar injecções de boa-disposição aos leitores, ou esquecer-se-á de que vive, como eu, muito acima da média do país. Nada tenho contra viver bem, mas faz-me espécie este tipo de discurso nacional-patrioteiro. E nem sequer sou pessimista – acho que Portugal vale a pena, sim, como qualquer outro país, desde que os seus cidadãos assim o entendam.

Termino com algumas notas:

– a ViaVerde é baseada em tecnologia norueguesa e utilizada em vários países;
– fazer jogos para telemóveis não é difícil em termos tecnológicos, mas de criatividade. Conceber tecnologias de telefonia móvel, isso é outra conversa;
– as “melhores agências bancárias” da Europa levam cinco dias a creditar um cheque depositado, e ganham dinheiro com isso;
– não temos centrais eléctricas mareomotrizes, e as eólicas só à força cá chegaram (eg, já são velhas Alemanha, Dinamarca e Escócia);
– os nossos transportes só são públicos porque qualquer pessoa os pode utilizar e (os cada vez menos) utentes não se conhecem entre si;
– “justice delayed is justice denied”, e nunca foi tão verdade como em Portugal;
– o nosso mercado só o é porque assim o chamam: onde é que, depois de uma liberalização, os preços de medicamentos, telecomunicações e electricidade sobem em vez de descerem ?
– o nosso Portugal não aposta na educação: a população tem em média o 8º ano, e uma sondagem recente à adulta indica que esta não está interessada em aprender mais.

~ por Rogério Silveira em Segunda-feira 23 Outubro, 2006.

3 Respostas to “Rui Costa, a propósito de Portugal Vale a Pena, por Nicolau Santos”

  1. Bolas, acabei de perder a minha resposta ao Rui Costa. Tentarei, ainda assim, deixar aqui as minhas reflexões a partir dos seus comentários.
    Primeiro, já me questionee várias vezes sobre se a ideia do negócio não soaria xenófoba ou demasiado nacionalista. Espero que entendam que é disso que se tarta, de uma ideia de negócio e que não sejam feitas quaisquer outras leituras (quem me conhece sabe que sempre “militei” na esquerda e me opus aos nacionalismos da direita; aliás quem emconhece sabe igualmente que não me orgulho particularmente de ser português e se tivesse podido escolher dificilmente seria esta a minha primeira escolha). Mas eis-me aqui nascido e a tentar fazer alguma coisa por me orgulhar disso (mesmo que o orgulho não encha barriga!). Também não estou pronto a desistir ou migrar – sem qualqer juízo de valor sobre os que o fizeram, aliás, com vantagem para os que por cá vão ficando. Assumo o meu destino e procuro construi-lo, não esperando pelas oportunidades, mas fazendo-as acontecer.
    Sim ser português nos dias de hoje não é fácil, não com vizinhos espanhóis e europeus a viverem muito melhor que nós. É precisamente contra o estado de alma do país que me insurjo que procuro inverter chamando atenção para o que temos de bom – que os outros também terão, mas cada um canta as suas próprias glórias. Sim Portugal vale apena, como todos os países, e se os outros se estão a esforçar por o fazer ver ao mundo então não nos devemos acobardar ou render, mas sim fazer o mesmo. Sim um país é o seu povo, a sua cultura e são esses que quero enaltecer. Quanto mais viajo mais me convenço de que não somos menos do que qualquer outro povo, contrariamente ao que muitas vezes a classe política nos quer fazer crer. Acredito nas nossas capacidades. Sim faço-o, tenho-o feito diariamente, primeiro como consultor, depois como professor, como pai, como cidadão. Sim procuro ganhar dinheiro com isso (não fora economista); se não reconhecesse potencial de negócio não me aventuraria – a racionalidade dos agentes é um pressuposto que assumo – mas procuro também gerar externalidades positivas e sinergias com outros, numa espiral de criação de valor. Mas os objectivos de rentabilidade privada submetem-se a uma missão de mais lata de vender felicidade, emoções (que não soe demasiado poesia ou filosofia barata) – afinal de contas aquilo que o português (e o chinês, e o brasileiro…) de hoje busca e sempre buscará. Sim somos um país de invejosos e de críticos fáceis que embarcam em discursos derrotistas e suspiciosos sobre os que vingam, mas que no fundo os admiram. Não, as mentalidades não se mudam por decreto, mas através de acções concretas, numa base sustentatada e a Fugas Lusas pretende ser um passo nessa direcção, pelo menos ao nivel local, um pequeno contributo para transformar Setúbal numa cidade mais humana e aprazível. Porquê? Porque entre tantos outros locais de Portugal e do mundo muito mais atraentes, é aqui que a geografia dos afectos me prende.
    Digam de vossa justiça.

  2. Bem este blogue está a tomar uma direcção política completamente inesperada, mas ainda assim que me agrada, estimulante e pertinente no âmbito do projecto empresarial.
    Aproveitando o comentário de Raposa Velha ao artigo do Nicolau Santos, aproveito para deitar mais algumas axas para a fogueira:
    Diz o blogger que os textos patrióticos o fazem lembrar as ominipresentes, mas bem idas, glórias dos descobrimentos. Ora bem, orgulhemo-nos disso e procuremos potenciar o espírito aventureiro, a capacidade técnico-cientifica em nós adormecida há tantos séculos. Somos hoje outros, o contexto é outro, tudo é outro, mas muitos outros (finlandeses, irlandeses…) foram capaz de se reinventar também temos de o ser.
    “…é muito mais fácil criticar (deviam com isso querer dizer apontar o lado negativo) do que elogiar. É verdade e eu, olhando para os meus textos, admito que constituem desabafos de insatisfação.” Não nos fiquemos pela lamentação (e se eu gosto de fado! sou dos que não resistem a cantar quando a tristeza os invade), e retiremos ilações para a acção.

    “…esforço para encontrar o lado positivo da actual governação … desta obstinação de se pretender levar a cabo medidas sem admitir o verdadeiro objectivo. Em vez disso, apregoa-se a medida como uma melhoria para os envolvidos quando salta à vista ser conversa fiada.” …”Na minha ingenuidade, creio que seria preferível assumir as verdadeiras motivações em vez de se tentar fazer da população um amontoado de tolos.” Isso não podemos aceitar que nos façam de parvos, pois de tanto o repetirem podem acabar por o conseguir. São demasiados Governos a fazer-nos crer que somos parvos e nisso não há qual moral política ou sentido de Estado. Daí os recém chegados discursos anti-tanga que procuram elevar a moral lusa, no qual a missiva do Nicolau Santos se insere, e de certa forma (ambições à parte), o projecto Fugas Lusas.

  3. O neurocirurgião é João Lobo Antunes.
    Lamento o erro.
    RC

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: