Saudades do Verão

O arrepio da, ainda demasiado, fresca brisa da aurora. O primeiro enterrar de pés na areia grossa orvalhada. O cobrir os ombros desnudos com a toalha de praia e ficar, silenciosamente, a aspirar, a plenos pulmões, os aromas intensos de mar e serra, saudosos. É só então que a pressão, acumulada durante o longo ano de activo e vida amorosa começa a dissipar-se, com a neblina.

Sinto fome e lamento, amargamente, a falta de algo substancial, calórico, na merenda. No momento do empacotamento pesaram os remorsos da alimentação desregrada dos últimos meses, o preconceito dos quilos acumulados sobre os ilíacos nas longas, escuras e frias noites invernais. Agora a maçã e o iogurte magro não trouxeram qualquer consolo e só agudizam a sensação de carência. O café contínua fechado. Continuo sozinho.

Lentamente, devagarinho, casai jovens e tenras crianças chegam ao areal. Da neblina e do silêncio já nada resta. Observo. A toalha cobre ainda o meu torso. Tento adivinhar o futuro daquelas famílias (para algumas o presente é por demais evidente). Quantas ainda estarão juntas no próximo ano? Quantas terão novos elementos? Quantas ainda estarão felizes? Quantas permanecerão, insistentemente, no miserabilismo da infelicidade? Esqueço. Desperto. Há agora muitíssima mais gente no areal. Mas o mar continua deserto. Temerário, aventuro-me. Olhares voltam-se na minha direcção. Sinto-me ridículo, falso magro, de barriga proeminente sobre pernas esguias, nuns fora de moda calções florais. Entro rapidamente na água, mais rápido do que faria se continuasse só – aí desfrutaria da sensação de faca (afiada durante a longa estação invernal) a enterrar-se em cada centímetro da minha derme, relembrando a doce carícia dos mergulhos de infância e adolescência, em bandos. O sol já dava um ar da sua graça há alguns minutos, fazendo antever o quão irrespirável se tornaria o ar a meio da tarde. Assim, constrangido, tudo o senti foi um fantástico choque térmico, seguido de um brutal arrepio, que nada teve de prazeiroso. Dei três longas braçadas submarinas. Emergi. Voltei a mergulhar roçando o fundo cascalhoso; o suave arranhar de bivalves de outrora foi porém estimulante. Assustei-me com um amontoado de algas que me enlearam um pé. Emergi. Já não sentia frio. Nadei, mas rapidamente fiquei ofegante e atordoado. Lamentei o tanto que fumara durante o passado ano e fiz, mais uma, promessa de deixar. Saí, nauseado, da água. A toalha foi, finalmente, chamada a cumprir as suas funções. Procurei enxugar-me. A goma da estreia da toalha nas lides estivais tornava-a impermeável. Fiquei repleto de penugem vermelha, contrastante com o negro da que me é inata. Agudizou-se a sensação de ridículo. Estendi-me, de costas. O calor do astro que há bem pouco me parecera intenso, levando-me a aventurar no mar, era agora demasiado ténue e fraco consolo. Insisti. Permaneci, enregelado. Lamentei, uma vez mais, a falta de hidratos de carbono na merenda. O frio era agora íntimo e superficial. Vesti-me. Parti. Piquei um pé na passadeira de acesso ao estacionamento e não tive forças para limpar a areia dos pés e pernas, que me parecia insuportavelmente doloroso. A estufa do carro soube-me bem e a música na rádio igualmente. O meu pensamento voou para o esparguete e frasco de pesto que me aguardavam na bancada da cozinha. Os dez minutos da cozedura pareceram-me, antecipadamente, insuportavelmente intermináveis. Não tive vontade do duche. Tonto de vinho e saciado abandonei-me à sonolência sobre a carícia imaculada do algodão e adormeci, apaziguado.

Saudades do Verão

~ por Rogério Silveira em Quinta-feira 15 Fevereiro, 2007.

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