Um Mar no Deserto

905966.jpg

Ao contrário do que se pensa, o Ministro Mário Lino não cometeu uma “gaffe”, quando se referiu à Margem Sul como sendo “um deserto”.

Na sua mentalidade reaccionária e provinciana, Salazar almejava um país, rural e ignorante, mais contido do que governado por uma administração burocratizada e repressiva. Profundamente desconfiado com a industrialização do país, – porque, com razão, a sabia associada ao surgimento do proletariado – aceitou a estritamente necessária, entregando-a aos barões do regime, que aliás controlava e protegia e situou-a em território inimigo, isto é, na Margem Sul. Consta que foi isso que anunciou na única vez que visitou Setúbal no âmbito da exposição regional, nos anos trinta. Doravante a mais bela região do país tinha o destino traçado: indústria pesada, química e extractiva, fortemente poluente, trabalho extensivo mal pago, actividades tradicionais sequelares porque incompatível com a contaminação industrial persistente, especulação imobiliária desenfreada, baixa qualidade de vida.

Foi esta região, precisamente a mais sofrida, a que mais expectativa criou com o 25 de Abril e a que mais se frustrou quando a esperança se gorou. Afinal, o paradigma era para manter. A mesma sobranceria e arrogância centralista e centralizadora dos governos, a mesma conivência dos seus agentes locais.

Características naturais extraordinárias que fariam a riqueza de qualquer nação, desbaratadas numa voragem de lucro fácil e imediato, ao arrepio do mais elementar respeito pela natureza e pelo ordenamento do território. Uma região fértil, um estuário detentor de uma biodiversidade espantosa, uma serra e um enquadramento paisagístico maravilhosos, uma história e um património de 5.000 anos reduzidos a um repositório de resíduos industriais.

Um nascente e promissor “mercado de resíduos”, como se lhe referiu o Ministro do Ambiente, imagine-se, quando veio inaugurar mais uma lixeira no Parque Industrial da Sapec. Um “mercado de resíduos” por cima do maior aquífero da Península Ibérica, precisamente quando um dos maiores problemas ecológicos actuais da humanidade, é a carência de água potável.

Um Parque Natural, como o da Arrábida, que faz parte de uma imensa baía, que constitui o maior manancial do Atlântico Norte, onde o governo socialista deste país alega a utilidade pública, precisamente para prescindir de um estudo de impacte ambiental e de uma consulta pública, esses sim institutos que acautelam o interesse público, com o objectivo de aí queimar Resíduos Industriais Perigosos, numa absurda fábrica de cimento que já de lá devia ter saído há muitos anos.

Os nossos intelectuais, particularmente activos enquanto jovens, e agora cada vez mais mediatizados, bem se desdobram em cargos e fóruns onde se discute o aquecimento global, enquanto, em casa, a contaminação industrial lhes entra pela porta do quintal, enquanto outros, também em vias de institucionalização, celebram os poetas mortos, não vão os vivos dizer alguma inconveniência.

Os partidos do chamado arco governativo impõe-nos líderes locais de opereta, sendo os mais proeminentes recrutados como administradores ou funcionários dos industriais menos escrupulosos, cujas campanhas políticas são por estes apoiadas e subsidiadas. E, no fim de contas, a estratégia é tão clara, que ninguém a parece ver, de tão óbvia que é. Há um dedo gigantesco a apontá-la, mas os interesses e os poderes fácticos insistem em não o enxergar.

Setúbal necessita de valorizar decisivamente aquilo que tem de melhor e mais genuíno que é a sua natureza privilegiada e recusar este paradigma industrial obsoleto e voraz. Setúbal é uma porta magnífica do oceano. Mas é necessário conhecê-la, estudá-la e investigá-la, tirando o melhor partido das suas riquezas. Elas estão aí, praticamente gratuitas, e para todos; é só não as corromper em benefício dos mesmos de sempre. Até o actual Presidente da República Cavaco Silva, que nos visitou no âmbito do 10 de Junho o reconheceu quando disse: “…o património oceânico é único e de recursos geológicos, minerais, biotecnológicos, energéticos que são muito relevantes”.
Afinal e apesar do Ministro para além do deserto há sempre o mar.

João Bárbara
Médico
Setúbal
(Gentilmente cedido por Inês Vieira da Silva – Arquitecta – Setúbal)

~ por Rogério Silveira em Quinta-feira 21 Junho, 2007.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: