A sociedade vê com maus olhos quem tenta criar o seu negócio ou a sua empresa

Empreendedorismo
in Público, 17.12.2007

“Em Portugal e na Europa, trabalhar significa ter emprego. Daí que a maior parte da população activa empregada neste espaço trabalhe para terceiros – o Estado, frequentemente, ou empresas privadas. (…) Enquanto isto, constata-se que o Velho Continente vem perdendo competitividade no contexto mundial (…) Há várias razões que justificam a perda de competitividade. Contudo, apenas nos ocuparemos da falta de iniciativa empresarial. (…)
Nós estamos formatados para uma realidade que já passou e encaramos mal esta nova realidade.
Desde muito cedo, logo no ensino secundário, a opção faz-se por áreas que têm saída profissional – entenda-se que têm oferta de emprego por conta de outrem. Nunca se escolhem áreas abrangentes que permitam desenvolver a iniciativa e a criatividade. Nem o sistema de ensino estimula tais capacidades. Pelo contrário, redu-las. Tolera mal, o sistema de ensino, a iniciativa do aluno para fazer um trabalho sobre determinado tema, tolera mal uma sugestão para resolver de modo alternativo um problema de Física ou Matemática, tolera mal uma sugestão para uma visita de estudo. 
Depois a sociedade vê com maus olhos quem tenta criar o seu negócio, ou a sua empresa. Diz-se logo que não vai dar, que vai ter muitas dificuldades, que só vai ter dores de cabeça, que não vai ter mercado… Se o negócio corre bem, a sociedade cala-se, nunca aplaude. Se corre mal, ainda antes de falir, já se diz a toda a gente que aquilo vai acabar, que não tem sucesso, que quis dar uma passada maior que a perna… Quando, ao fim e ao cabo, uma falência é equivalente a um mau resultado profissional de um trabalhador por conta de outrem. É assim que é entendido em sociedades que valorizam a iniciativa privada.
As instituições financeiras também vêem com maus olhos a iniciativa individual, apesar de fazerem o discurso contrário. Mesmo que o candidato a empresário demonstre bem as virtualidades do negócio, as instituições financeiras só financiam metade do investimento, na melhor das hipóteses. Mesmo assim, com avales pessoais, hipotecas, fianças… Mas são capazes de financiar montantes equivalentes de crédito pessoal só com uma conta-ordenado.
A administração pública é absolutamente insensível à iniciativa. Privilegia as normas, os pareceres, as licenças… Nunca há um órgão com carácter horizontal que indique o caminho mais curto a percorrer no labirinto da burocracia. Isto já sem se discutir a necessidade da burocracia. Pelo contrário, pelo caminho ainda aparecem as falsas pistas, às vezes de má-fé, só porque se pensa que ter uma empresa ou um negócio é uma forma de enriquecer facilmente.
Esta forma de ser e de estar tem de mudar. Os tempos são outros. (…) A sociedade adapta-se lentamente às novas realidades. A forma como a sociedade encara o trabalho talvez só se resolva no tempo de duas gerações. A pressão dos factos é que vai implicar a alteração da nossa forma de pensar. Mas, também, é necessário que, entretanto, o sistema de ensino e a regulação da organização do trabalho tenham esta realidade presente e ajudem a acelerar a mudança. Oxalá que sim. “

~ por Rogério Silveira em Segunda-feira 17 Dezembro, 2007.

Uma resposta to “A sociedade vê com maus olhos quem tenta criar o seu negócio ou a sua empresa”

  1. É verdade, a Fugas Lusas (e eu) tem experimentado na pele alguns dos aspectos menos dourados do empreendedorismo ao longo deste nosso primeiro ano de actividade, mesmo que o negócio tenha sido criado com claras preocupações de responsabilidade social e de valor acrescentado para a comunidade e não apenas numa lógica estrita de rentabilidade privada: a aposta exclusiva em produtos nacionais prende-se, como já tive oportunidade de referir aqui, não com qualquer sentimento xenófobo face ao que vem de fora, mas com a preocupação de gerar economias externas positivas para o conjunto das partes interessadas no nosso sucesso, desde logo os nossos fornecedores e parceiros, os colaboradores e subcontratados, a comunidade local… de que as mais importantes são a criação directa e indirecta de emprego e de valor acrescentado (riqueza e impostos).
    A imagem negativa do empresário bem sucedido (ainda que esteja longe de me incluir neste grupo), de matriz cultural, é um facto, a que se alia a tradição lusa de negro fado, que apregoa desventura. A verdade é que os obstáculos, culturais (nacionais e locais, de descrédito em projectos de qualidade e que lutam por marcar a diferença), económicos (investir em fase baixa do ciclo), e burocratico-administrativos (sem comentários à actuação dos serviços camarários) têm sido numerosos e alguns de envergadura respeitável. Só a profunda crença (suportada em análises económicas mais ou menos rigorosas – sim porque esta coisa da racionalidade e informação perfeita dos economistas tem que se lhe diga e está longe de ser verdadeira) na valia do negócio, o relegar à tradicional ambição de resultados a curto prazo, a permanente actualização da estratégia e modus operandi do negócio, o sacríficio pessoal e familiar nos tem permitido perseverar e não desanimar, Claro que está que para isso tem sido muito importante o feed-back positivo dos nossos clientes, o reconhecimento da qualidade do espaço, dos serviços e dos produtos, que no nosso caso tem suplantado as vozes críticas e sentimentos menos positivos igualmente despertados.
    Também enquanto professor procuro ter esta atitude favorárel à livre iniciativa e de valorização da capacidade propositiva dos estudantes. A este nível estabelece-se uma muito positiva relação de sinergia entre o ensino de temáticas de empreendedorismo e inovação e o projecto piloto em que me envolvi, verdadeiro teste às minhas capacidades de concretização e resiliência à adversidade. A Fugas está para a minha actividade docente na ESCE IPS como verdadeiro laboratório de ensaio e caso de estudo, de legitimação das lições transmitidas; como a última está para a primeira como fonte de conhecimento e aprendizagem permanente. Geram-se importantes sinergias entre as duas actividades, mesmo tratando-se de uma vulgar actividade tradicional, de baixa intensidade tecnológica, mas ainda assim que se pretende intensiva em conhecimento.

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